Brilhos e sombras da Gala Michelin
Portugal passa a ter 210 restaurantes inscritos no guia gastronómico, 12 dos quais na Madeira
O madeirense Afonso Dantas, que trabalha em Évora, foi uma das grandes revelações da noite
O hotel Savoy Palace foi ontem palco da edição de 2026 do Guia MICHELIN Portugal que destacou 210 restaurantes nacionais, 12 dos quais na Madeira, prova que o País continua a reforçar a sua clara aposta na gastronomia enquanto ponto fulcral de atracção turística, cada vez com maior dinamismo e mais qualidade.
Daí que Gwendal Poullennec, Director Internacional do Guia MICHELIN, seja peremptório: “O panorama gastronómico português vive um momento de efervescência, pois os chefs consolidados abrem novos restaurantes, mais informais, e o sector hoteleiro está a apostar, firmemente, na gastronomia enquanto um eixo fundamental da sua oferta de fidelização. Por outro lado, assistimos a um maravilhoso equilíbrio entre a cozinha moderna, ou mais inovadora, e o respeito pelo receituário tradicional, tomando, em ambos os casos, como referência um produto local de inequívoca excelência”.
Da noite de festa da gastronomia nacional, , que foi apresentada por Daniela Ruah, entre brilhos e sombras, sobram múltiplos números e considerações que importa partilhar:
Números que ficam
Em resumo, da edição de 2026 da Gala do Guia Michelin, sobram estes números:
- 2 Estrelas: 9 restaurantes (1 novidade)
- 1 Estrela: 44 restaurantes (10 novidades)
- Bib Gourmand: 26 restaurantes (2 novidades)
- Recomendados: 131 restaurantes (34 novidades)
- Estrelas Verdes: 7 restaurantes (1 novidade)
Um estreante nas duas estrelas
O Fifty Seconds, o restaurante da Torre Vasco da Gama, complementar ao hotel Myriad by Sana, a cargo do chef Rui Silvestre, conquistou a segunda estrela Michelin, na terceira edição da gala exclusivamente nacional, elevando para nove os estabelecimentos com esta distinção no país. A 'cozinha excelente que vale a pena o desvio', junta-se aos oito estabelecimentos já galardoados que mantiveram a distinção, entre os quais o madeirense Il Gallo D'Oro, chefiado por Benoit Sinthon.
10 novos com uma estrela
Dez novos restaurantes entraram para o Guia Michelin Portugal 2026 com uma estrela, que distingue uma 'cozinha de grande nível, compensa parar', totalizando agora 44 nesta categoria no país.
Os restaurantes premiados com uma estrela foram A Cozinha do Paço (Afonso Dantas, Évora), MAPA (David Jesus, Montemor-o-Novo), Alameda (Rui Sequeira, Faro), Kappo (Tiago Penão, Cascais) Largo do Paço (Francisco Quintas, Amarante), dop (Rui Paula/ Sandro Teixeira, Porto), Éon (Tiago Bonito, Porto), Gastro by Elemento (Ricardo Dias Ferreira, Porto), In Diferente (Angélica Salvador, Porto), e Schistó (Vítor Matos/Vítor Gomes, Peso da Régua).
Os madeirenses Desarma e William mantêm a estrela.
Dois Bib Gourmand
A distinção Bib Gourmand, relativa a uma boa relação qualidade/preço, foi atribuída a dois novos estabelecimentos - Mesa15 (Petr Kiss, Leiria) e Taberna Sakra (Hugo China Ferreira, Alverca do Ribatejo), elevando o número de restaurantes com esta distinção para 26, entre os quais está o madeirense Casal da Penha.
34 novos restaurantes recomendados
O dinamismo culinário de Portugal volta a estar, mais uma vez, evidente quando se observa o elevado número de estabelecimentos que abriram as suas portas em todo o país. Dos 131 restaurantes recomendados que é possível encontrar na selecção de 2026, há 34 novidades.
Existem interessantes propostas a cargo de chefs de prestígio (Atrevo no Porto, BROTO em Lisboa, Maré - José Avillez em Cascais), e há uma quantidade de restaurantes que abriram em hotéis (1638 Restaurant by Nacho Manzano em Vila Nova de Gaia, Bistrô Severo no Porto, Cozinha das Flores no Porto, Cozinha do Douro em Lamego, JNĉQUOI Fish, JNĉQUOI Table e Santa Joana em Lisboa), o que demonstra o interesse pela gastronomia enquanto parte fundamental da indústria hoteleira para atrair e fidelizar clientes. Nos estabelecimentos com cozinhas modernas de raízes lusas, continuam a ganhar relevância os restaurantes de fusão (como o DUOO Gastro Theatre em Portimão, ou o Salta em Lisboa), e os que apostam nos sabores e técnicas próprios da cultura nipónica (o Izakaya Japanese Cuisine no Porto, tanto o MITSU como o Omakase Wa em Lisboa, e, por fim, o Pearl em Faro).
Neste capítulo da boa cozinha continuam em destaque os madeirenses que entraram em 2025, casos do 'Ákua' (Júlio Pereira / Liliana Abreu), do 'Audax' (César Vieira), do 'Avista Ásia' (Rui Pinto / Benoit Shinton), do 'Gazebo' (Filipe Janeiro Grácio Gomes) e do 'Oxalis' (Gonçalo Bita Bota). Na lista já estavam o 'Avista', o 'Vila do Peixe' e o 'Horta'.
Mulheres em alta
Entre os novos restaurantes que conquistaram ontem uma estrela Michelin conta-se o In Diferente, no Porto, tornando a chef Angélica Salvador a quarta mulher a conquistar esta distinção, depois de Marlene Vieira (Marlene, em Lisboa) e Rita Magro (Blind, no Porto), em 2025, e de Maria Alice Marto, a primeira 'chef' portuguesa a receber uma estrela Michelin, em 1993, com o restaurante Tia Alice, em Fátima.
Casal de vencedores
Um dos momentos com maior carga emocional da noite resulta da dupla vitória de dois chefs que, por sinal, são casados um com o outro: Tiago Bonito (Éon, Palacete Severo, Porto) e Angélica Salvador (InDiferente, Porto), que assumiu estar "feliz ao quadrado”. Já no ano passado houve um casal Michelin em alta, casos de Marlene Vieira e João Sá que têm projectos em Lisboa.
Três estrelas na gaveta
Portugal continua sem ter uma classificação máxima de três estrelas, habitualmente atribuído a "uma cozinha única, justifica a viagem". Havia elevada expectativa que tamanha distinção fosse atribuída ao Vila Joya, do Ocean ou ao Belcanto, liderado pelo chef José Avillez. A distinção mais alta do Guia, valoriza os restaurantes que “costumam ter cozinheiros no auge da profissão, capazes de elevar a culinária à categoria de arte, com pratos destinados a tornar-se clássicos.”
Quintas sucede a Costa
O Guia Michelin Portugal 2026 atribuiu o prémio 'jovem chef' a Francisco Quintas (Largo do Paço, Amarante), que também conquistou uma estrela Michelin nesta gala, que assim sucede ao madeirense José Diogo Costa que no início do ano deixou o William rumo à Grécia.
Quintas tem 27 anos e recebe este galardão como recompensa pelo seu "magnífico trabalho dentro deste espaço gastronómico, ainda que devamos recordar que já saboreou o sucesso durante a sua passagem pelo lisboeta 2Monkeys". No restaurante situado no interior do renovado hotel Casa da Calçada "encanta com uma proposta moderna, não isenta de delicadeza e técnica, que valoriza a harmonia dos sabores, construídos sempre com base tanto nas suas experiências pessoais (trabalhou atrás de prestigiados fogões de Inglaterra, Bélgica, Holanda e França), como nos melhores produtos sazonais portugueses".
Distinção inédita
O restaurante JNcQUOI Table recebeu distinção "Opening of the year', atribuída este ano pela primeira vez. O restaurante, dirigido pelo chef Filipe Carvalho, "surpreende pelo seu carácter clandestino, ao apresentar-se como um balcão gastronómico e exclusivo sob o seu outro restaurante, o JNĉQUOI Fish". A experiência gira em torno do mundo oceânico, e dos seus produtos, passando previamente por um bar-cocktail (The Mirror Room) que, com base em espelhos, simula ser um jardim subaquático, e oferece cocktails de design, inspirados nas profundezas marinhas.
Serviço também conta
O prémio 'sala', que distingue o serviço, foi entregue Adácio Ribeiro. Segundo o Guia, o galardoado "está sempre atento a tudo na sala do laureado restaurante Vila Foz (Porto), é um homem que viveu a hotelaria, e o espírito de serviço, desde a sua infância, sempre em paralelo com a sommellerie, a sua outra grande paixão". "Com uma vastíssima experiência, sobretudo em hotéis, considera-se um embaixador do Vinho Verde e do serviço, adaptado a cada cliente, como a melhor forma de surpreendê-lo, respeitando os seus gostos", refere a Michelin.
Sommelier "cúmplice"
Numa categoria que em 2024 foi ganha por Leonel Nunes, do Il Gallo D'Oro, o 'sommelier' premiado foi Carlos Monteiro que trabalha no duas estrelas Casa de Chá da Boa Nova (Leça da Palmeira), o restaurante baluarte do chef Rui Paula. "Brilha com a sua própria luz e procura sempre elevar a experiência dos comensais através de um trato requintado e cúmplice", assume o Guia. Nas suas próprias palavras, “o sommelier tem a missão de encontrar a harmonia à mesa, entre o vinho e a comida”.
Domínios evidentes
Lisboa e Porto continuam a ser os principais focos de apelo, mas esse turismo internacional em ascensão, que demonstra estar apaixonado pelo país, evidencia, também, um crescente interesse por destinos interiores, mais recônditos ou desconhecidos, daqueles que nos convidam a uma experiência completa. Nesta vertente, destaca-se de forma particular a região do Alentejo, que proporciona sempre uma ligação especial com o território.
Há um salto qualitativo dado pela cidade do Porto, que, com 4 novos restaurantes galardoados com uma Estrela MICHELIN (dop, Éon, Gastro by Elemento e In Diferente) torna-se num destino gastronómico internacional de primeiro nível.
Um madeirense em Évora
O madeirense Afonso Dantas foi a estrela da noite. Primeiro, por alcançar a Estrela Verde, esse compromisso com uma gastronomia consciente, fazendo com que o restaurante que chefia, A Cozinha do Paço (Évora), passe a fazer parte dessa comunidade restrita, já com 7 estabelecimentos em Portugal, tanto pelo seu enraizamento no Alentejo, como pela recuperação de ingredientes esquecidos da região, promovendo sempre práticas agrícolas adaptadas a uma cozinha de memória, que tem o rico mundo vitivinícola local como ponto de partida.
Depois, por ter conquistado a primeira estrela Michelin, fruto dos dois menus de degustação contemporâneos: Poda Longa e Poda em Vaso, que permitem descobrir alma alentejana no histórico Paço do Morgado de Oliveira. O Guia destaca "o ambiente, intimista e sofisticado, que convida a ligar a cozinha de autor com a cultura vitivinícola local".
Afonso Dantas chefia o restaurante integrado no projecto Fita Preta, do produtor de vinhos António Maçanita.
Andreia Correia , 10 Março 2026 - 20:34
Três perdas a registar
Três restaurantes viram a distinção suprimida. Fora da lista ficam o Al Sud, em Lagos, e o Eleven e o Arkhe em Lisboa. A saída do chef Louis Anjos e o encerramento temporário do restaurante algarvio são as razões plausíveis no primeiro caso. No segundo, apesar do espanto, prova que os inspectores são rigorosos e que o restaurante localizado no alto do Parque Eduardo VII e chefiado por Joachim Koerper mantém oscilação entre ganhos e perdas de estrela. No terceiro porque encerrou após ter conquistado uma estrela no ano passado.
Açores ainda sem brilho
Por estranho que possa parecer não há restaurantes dos Açores em destaque no Guia Michelin. Honra seja feita ao BIOMA dos chefs Franco Pinilla e Rafael Ávila Mel que marcaram presença na esperança de, no mínimo, uma recomendação.
Este restaurante do Pico é um espaço onde se vivem experiências gastronómicas com base no património açoriano, onde se saboreia a fusão de produtos frescos locais com a alta técnica culinária e os saberes tradicionais e se celebram os sabores dos Açores, num compromisso entre a tradição, inovação e sustentabilidade. Diz quem sabe que tem tudo para dar certo.
Show cooking “soberbo”
A gala fechou com um espectáculo gastronómico “soberbo”, como confidenciaram muitos dos 500 convidados.
Mérito total para os chefs madeirenses que mantiveram as estrelas do Guia Michelin. Benoît Sinthon, chef do Il Gallo d’Oro, no Funchal, novamente distinguido com 2 Estrelas Michelin e a Estrela Verde Michelin e a quem coube a coordenação gastronómica da gala, apresentou uma folha verde, lulas da ilha e uma inspiração de banana e maracujá.
Octávio Freitas, do Desarma, com 1 Estrela Michelin propôs truta do Seixal, percebes da costa e pitanga da Madeira. Francisco Avalada, do William, com 1 Estrela Michelin, apresentou borrego com batata doce, peixe da costa e peixe do atlântico.
Mas também de Júlio Pereira, do Ákua, restaurante recomendado, que serviu espada fumada com banana e marcujá, arroz de carabineiro e algas e rabo de boi, cogumelos e mousse de fígado. João Dinis, chef do Casal da Penha, distinguido com Bib Gourmand, serviu sopa de trigo, bolo do caco e espetada regional com milho frito. Não faltou comida, nem bebida.
Vinhos madeirenses brilham
Os vinhos madeirenses brilharam na noite das estrelas. A Barbeito levou Vinhas do Lanço, verdelho de 2024 e o Sercial 1994 Frasqueira
A Justino’s serviu um Fanal Folgasão, Ponta do pargo 2023, um Fanal Touriga Nacional Vereda do Arrudal 2023 e um Terrantez com 30 anos.
A Companhia dos Profetas e Vilões surgiu com Caracol dos Profetas – Fazendas da Areia 2023 e o Tinta Negra dos Vilões de 2024.
A Madeira Wine Company serviu o Atlantis de 2024, a Blandy’s um malvasia com 10 anos e a Henrique & Henriques um verdelho com 20 anos.
A única excepção regional foi o espumante que veio da Bairrada, da Quinta das Bágeiras, sendo que a selecção de vinhos esteve a cargo da Robert Parker Wine Advocate, Luis Gutierrez.
Festa condicionada
O que podia ser uma festa de arromba acabou cedo. Ao que o DIÁRIO apurou as entidades municipais do Funchal acharam por bem serenar os ânimos e só deram autorização para a folia até à uma da manhã. Mais 300 mil euros investidos pela Região no evento mereciam outra visão camarária, a menos que não haja excepções. Se assim for, prevê-se que os horários de funcionamento de restaurantes e bares durante o próximo Mundial de Futebol vão dar brado.
Ricardo Miguel Oliveira , Foto Rui Silva/ASPRESS , 11 Março 2026 - 00:18
Mediatização dificultada
Se é certo que a gala teve transmissão televisiva e que houve acesso livre da imprensa à passadeira vermelha, houve pormenores na organização que não se compadecem dos desafios da era digital, alguns dos quais incoerentes. Permitir directos de várias televisões e impedir a cobertura fotográfica da gala por parte da comunicação social não faz qualquer sentido.
Se é certo que quem não conseguiu estar no Ballroom do Savoy Palace, acompanhou a gala através da página de YouTube do Guia Michelin, no canal Conta Lá, quem seguiu as notícias pelos jornais só teve imagens em tempo útil captadas por telemóvel. Só uma hora e meia depois de terminado o evento é que foram disponibilizadas as fotografias oficiais.
Experiência memorável
Para muitos dos 65 alunos da Escola de Hotelaria e Turismo que foram chamados a intervir em vários momentos e funções na gala a experiência foi inesquecível. Uma estreia de sonho, a que juntaram ao serviço, um ar bem disposto, muita descontracção e boa educação.
NAPA gastronómicos
A gala do Guia Michelin Portugal 2026 teve dois momentos musicais protagonizados pelo grupo madeirense NAPA que venceu o Festival da Canção de 2025.
Numa versão fraterna e intimista, assumida pelos manos João Guilherme Gomes e João Lourenço Gomes, ouviu-se o inevitável 'Deslocado', mas também um 'Comerinho', um surpreendente tema gastronómico, com sotaque madeirense, inspirado na cozinha da avó e da mãe, tal como o fazem todos os chefs.
Guilherme Gomes assumiu que chegou a sonhar ser chef tendo estagiado com Octávio Freitas, Benoit Sinthon e David Jesus, mas depressa percebeu que o futuro não passava pela cozinha.